Angola precisa de produzir melhor, não apenas mais, dizem especialistas
Angola enfrenta um desafio estrutural que vai além do aumento da produção: a necessidade urgente de melhorar a qualidade dos bens produzidos localmente. Especialistas económicos alertam que o país deve concentrar esforços na qualificação da produção agrícola e industrial para garantir competitividade no mercado regional e reduzir a dependência das importações.
A questão ganha relevância num momento em que o Executivo angolano intensifica campanhas de incentivo à produção nacional, particularmente no sector agrícola. Contudo, técnicos do sector privado e académicos sublinham que produzir em maior quantidade sem garantir padrões de qualidade adequados pode resultar em produtos não competitivos e desperdício de recursos.
Qualidade como barreira à competitividade
O mercado angolano continua dominado por produtos importados, especialmente da África do Sul, Portugal e Brasil, que oferecem padrões de qualidade superiores a preços competitivos. Mesmo em sectores onde Angola possui vantagens naturais, como a agricultura, a produção local enfrenta dificuldades para conquistar a preferência dos consumidores.
Produtos hortícolas, cereais e até carne produzidos localmente frequentemente não atendem às expectativas de qualidade, conservação e apresentação exigidas pelo mercado urbano, especialmente em Luanda. Esta situação perpetua o ciclo de dependência externa e dificulta a criação de cadeias de valor nacionais sustentáveis.
A falta de infraestruturas de armazenamento adequadas, sistemas de refrigeração eficientes e controlo de qualidade rigoroso contribui para perdas significativas na produção agrícola. Estimativas não oficiais apontam que entre 30% e 40% da produção hortícola nas províncias se perde antes de chegar aos mercados finais.
Formação técnica e transferência de conhecimento
A melhoria da qualidade produtiva passa necessariamente pelo investimento em formação profissional e transferência de tecnologia. Angola possui um défice acentuado de técnicos especializados em agronomia moderna, processamento industrial e gestão de qualidade.
Instituições de ensino superior têm procurado responder a esta necessidade, mas a ligação entre academia e sector produtivo permanece frágil. Empresários agrícolas e industriais relatam dificuldades em encontrar mão-de-obra qualificada, mesmo para funções técnicas básicas.
Programas de assistência técnica rural, quando existem, carecem de continuidade e alcance limitado. Pequenos produtores, que representam a maioria da força produtiva agrícola, raramente têm acesso a orientação sobre boas práticas, uso adequado de fertilizantes ou técnicas de conservação pós-colheita.
Certificação e normas de qualidade
A ausência de sistemas robustos de certificação e normalização constitui outro obstáculo significativo. Angola dispõe de um Instituto Angolano de Normalização e Qualidade, mas a aplicação efetiva de normas técnicas no terreno permanece irregular.
Produtos fabricados localmente raramente passam por testes de qualidade sistemáticos ou certificação reconhecida internacionalmente. Esta situação limita não apenas a competitividade interna, mas também qualquer ambição exportadora, uma vez que mercados externos exigem conformidade com padrões internacionais.
O sector alimentar ilustra bem este desafio. Unidades de processamento de alimentos operam frequentemente sem fiscalização sanitária adequada, e a rastreabilidade dos produtos desde a origem até ao consumidor é praticamente inexistente na maioria dos casos.
Investimento em infraestrutura produtiva
A qualidade da produção depende também da disponibilidade de infraestruturas apropriadas. Angola enfrenta carências em áreas críticas como energia eléctrica estável, água de qualidade controlada, vias de acesso em bom estado e sistemas de logística eficientes.
Zonas produtoras nas províncias do Huambo, Benguela, Bié e Huíla enfrentam dificuldades recorrentes no escoamento da produção para os centros urbanos. Estradas degradadas danificam produtos durante o transporte, aumentam custos e tempos de entrega, comprometendo a qualidade final.
A eletrificação rural inadequada impede a instalação de sistemas de refrigeração e processamento que poderiam agregar valor à produção primária. Iniciativas de industrialização local ficam comprometidas pela irregularidade no fornecimento de energia e água.
Experiências de sucesso parcial
Apesar dos desafios, alguns projectos demonstram que a melhoria qualitativa é possível. Cooperativas agrícolas nas províncias do Kwanza Sul e Malanje, apoiadas por programas de desenvolvimento rural, conseguiram elevar padrões de produção através de assistência técnica regular e acesso a insumos de qualidade.
No sector industrial, algumas fábricas de bebidas, materiais de construção e produtos químicos alcançaram certificações internacionais, comprovando capacidade técnica quando existe investimento adequado e gestão profissional.
Estes casos, contudo, permanecem excepções num panorama dominado por produção artesanal ou semi-industrial sem controlo de qualidade consistente. A replicação destas experiências positivas esbarra em limitações de financiamento, ausência de políticas de incentivo específicas e falta de coordenação institucional.
Papel do sector privado e parcerias
Especialistas defendem maior protagonismo do sector privado na definição de padrões de qualidade e na criação de mecanismos de auto-regulação. Associações empresariais poderiam desempenhar papel relevante na certificação de membros e promoção de boas práticas.
Parcerias público-privadas focadas em transferência de conhecimento e modernização produtiva são apontadas como caminho viável. Empresas estrangeiras com presença em Angola poderiam contribuir através de programas de formação de fornecedores locais, elevando gradualmente os padrões da cadeia produtiva nacional.
O desafio da qualidade produtiva em Angola não se resolve apenas com investimento financeiro, mas exige mudança de mentalidade, valorização da excelência técnica e construção paciente de cultura de qualidade em todos os elos da cadeia produtiva. O caminho é longo, mas especialistas concordam que sem este salto qualitativo, a diversificação económica permanecerá objectivo distante.




